Pelo menos 4% da população apresenta esse lado sombrio da mente. Pode ser qualquer pessoa: um colega de trabalho, o marido ou um filho. Pessoas generosas são as vítimas preferidasFrios, manipuladores, cruéis e destituídos de compaixão, culpa ou remorso. Utilizam-se de seu charme e inteligência para impressionar, seduzir e enganar quem atravessa o seu caminho. Estão camuflados de executivos bem sucedidos, ‘bons’ políticos, bons amigos, ‘pais e mães de família’ e não costumam levantar suspeitas sobre quem realmente são. Estes são os psicopatas, e, quando pensamos em um deles, logo imaginamos um sujeito violento, com aparência de assassino e que pode ser reconhecido em qualquer lugar. Não é tão simples quanto se pensa. A maioria nunca vai chegar ao extremo de cometer um assassinato e se passa por pessoa ‘comum’.A psiquiatra pós-graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, de 44 anos, esclarece-nos que os psicopatas são indivíduos que podem ser encontrados em todos os segmentos da sociedade. "O mal existe e não tem cura. Para nos precaver dele é vital entender que ele verdadeiramente está perto de nós". O livro "Mentes Perigosas: o Psicopata Mora ao Lado" traz informações úteis e reveladoras, tanto que entrou rapidamente para a lista de mais vendidos da revista Veja e continua lá até hoje, em 15ª posição, mesmo tempos depois do seu lançamento. Ana Beatriz também é autora de outros livros interessantes, como "Mentes Inquietas", "Mentes & Manias", "Mentes Insaciáveis: Anorexia", "Bulimia e Compulsão Alimentar" e "Mentes com Medo: da Compreensão à Superação".
Na análise da Ana Beatriz - Psicopata é o indivíduo que apresenta um transtorno de personalidade, que se caracteriza por total ausência de sentimento de culpa, arrependimento ou remorso pelo que faz de errado. Falta de empatia com outro e emoções de forma geral (amor, tristeza, medo, compaixão, etc.). Os psicopatas são frios e calculistas, mentirosos contumazes, egocêntricos, megalômanos, parasitas, manipuladores, impulsivos, inescrupulosos, irresponsáveis, transgressores de regras sociais, muitos são violentos e só visam ao interesse próprio. Nós, latinos, afetivos, passionais, temos dificuldade de admitir que existem pessoas más. Eles estão infiltrados em todos os meios sociais, credo, sexo, cultura e são capazes de passar por cima de qualquer pessoa apenas para satisfazer seus sórdidos interesses. Podemos dizer que são verdadeiros ‘predadores sociais’, almejam somente o poder, status e diversão e usam as pessoas apenas como troféus ou peças do seu jogo cruel.Não. É muito comum as pessoas associarem psicopatia com loucura, mas isso é uma ideia equivocada. ‘Loucura’ é o que a medicina denomina surto psicótico (alucinações ou delírios), como ocorre com os portadores de esquizofrenia, por exemplo. Já os psicopatas sabem exatamente o que estão fazendo, que estão infringindo regras sociais, e que a vítima está sofrendo com suas atitudes maquiavélicas, imorais e antiéticas. Os psicopatas não apresentam problema algum de ordem cognitiva ou deficiência de raciocínio. A deficiência deles está no campo das emoções: aquilo que nos vincula afetivamente com o outro ou com todas as coisas do universo. Isso também é um grande equívoco. A maioria sequer matou uma pessoa ou até mesmo apresenta uma aparência perversa. Para entender isso, é preciso ter em mente que existem níveis variados de psicopatia: leve, moderada e severa. O psicopata leve (a maioria) é aquele que vive de golpes, roubos, fraudes, estelionatos, que engorda ilicitamente suas contas bancárias com o dinheiro público, etc.
Geralmente são charmosos, sedutores, inteligentes, aparentam ser pessoas "do bem", possuem grande poder de persuasão e habilidade para enganar quem quer que seja. Estão do lado de fora das grades, convivendo com todos nós, sem levantar suspeitas de quem realmente são. Mas todos deixam marcas de destruição por onde passam.
Existem assassinos passionais que jamais matariam novamente. Um exemplo é a mulher que matou o estuprador do filho dela de 4 anos. Ela nada tem de psicopata. Ao contrário, apesar da violência, o crime dela pode ser compreensível para muitas mães. Ao passo que um psicopata pode nunca ter a necessidade de assassinar, resolvendo suas questões matando vidas afetivas e financeiras, prejudicando pessoas de forma irreversível, mas sem matá-las.Inclusive os profissionais da área médica e psicológica podem ser facilmente enganados por eles, uma vez que eles são os verdadeiros atores da vida real. Mas há algumas características básicas entre eles: falam muito de si mesmos, mentem e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora por um lado, mas são charmosos e sedutores por outro.Somente uma pequena parcela dos psicopatas é serial killer ou assassino em série.
Os que detêm a psicopatia leve estão disfarçados de líderes religiosos, bons políticos, executivos bem sucedidos, bons amigos, bons amantes... eles podem arruinar empresas, destruir lares, se promover à custa dos outros, mas não sujam suas mãos de sangue.
Chefes também podem ser psicopatas – o que costuma se manifestar pelo assédio moral aos funcionários. Um dado interessante é que eles não sentem compaixão ou remorso. Mas sabem, cognitivamente, o que é ter esses sentimentos. Daí representarem tão bem – e às vezes exageradamente – o papel de vítima.Na população carcerária, segundo pesquisas feitas no Canadá e nos Estados Unidos, há de 20% a 25% de psicopatas. Reconhecer um psicopata não é uma tarefa tão fácil até porque, como já dito, a maioria não tem aparência de mau ou descuidada.
A medicina só pode dar o diagnóstico de psicopatia a partir dos 18 anos. No entanto, ninguém se transforma em psicopata de um dia para o outro. O indivíduo já nasce psicopata. Assim, fica claro que uma criança e um adolescente também apresentam condutas maldosas ou são genuinamente perversos. Isso se percebe nos maus-tratos com os irmãos, coleguinhas e animais, nas mentiras recorrentes, roubos de pertences dos outros, transgressões de regras sociais, e especialmente na falta de afeto.
Quase sempre pessoas generosas, em especial aquelas que não acreditam no mal e costumam tentar justificar as atitudes de todo mundo. Se nós queremos nos defender e não compactuar com essas pessoas é preciso entender que o mal existe verdadeiramente. É preciso ter cautela sempre quando não se conhece alguém ainda muito bem. Checar seus hábitos, saber um pouco do seu passado, ficar atento ao joguinho ‘da pena’, ‘do coitadinho’.
Em se tratando de saúde mental, só podemos falar em tratamento para as pessoas que estão em sofrimento e apresentam intenso desconforto emocional, que as impede de manter uma boa qualidade de vida. Por mais bizarro que possa parecer, os psicopatas parecem estar inteiramente satisfeitos consigo mesmos e não apresentam constrangimentos morais ou sofrimentos emocionais como depressão, ansiedade, culpas ou baixa autoestima. Assim, não é possível tratar um sofrimento inexistente.
O problema do Brasil é que ele agrupa os psicopatas e os doentes mentais na mesma legislação, porém a psicopatia não se enquadra nas doenças mentais padronizadas. Por ser um transtorno de personalidade, ela resulta em um indivíduo cujo ‘modo de ser’ se limita a condutas antissociais com enorme potencial destrutivo. Caso este mesmo indivíduo seja diagnosticado como psicopata, é considerado um doente mental e se beneficia de um tratamento psiquiátrico em manicômio judiciário. Como não há cura, teoricamente ele deveria ficar por lá pelo resto da vida, o que não acontece na prática.
Em países como o Canadá, Inglaterra, Austrália e em alguns estados dos EUA, onde se aplica a escala Hare (check list para psicopatia), o psicopata cumpre penas bem mais rigorosas: prisão perpétua em celas específicas com isolamento.
Mais do que se imagina, cerca de quatro em cada 100 pessoas são psicopatas, segundo estatísticas norte-americanas. Mais homens que mulheres. São três homens para cada mulher. Mas não sabemos se as mulheres não estão sendo subdiagnosticadas. Isso porque eles são naturalmente mais impulsivos e agressivos que as mulheres. Já elas apresentam uma perversidade mais sutil, camuflada, no campo das intrigas. Mas seja lá como for não existe nenhuma pesquisa que aponte por que existem mais homens psicopatas que mulheres.
Os psicopatas da vida real costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos. Manipulam as pessoas por meio de elogios desmedidos. Se tiver de começar a desconfiar de alguém, desconfie sim dos ‘bajuladores excessivos’.
Se um criminoso psicopata for condenado sem esse diagnóstico, cumpre a prisão, mas ao sair da cadeia, a sociedade corre os mesmos riscos de antes.
Fonte: Centro de Psiquiatria HC


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